O que é a tal felicidade, afinal?

Nossos políticos e estudiosos em geral consideram em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Eles registram os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Eles levam em conta a destruição de nossas florestas e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Elem incluem a produção de armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Eles registram em  programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças.

Por outro lado, não observam a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupam em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não consideram nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada dizem sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, eles medem tudo, menos o que faz a vida valer a pena.

Observadores indicam que cerca de metade dos bens cruciais para a felicidade humana não tem preço de mercado nem pode ser adquirida em lojas. Qualquer que seja a sua
condição em matéria de dinheiro e crédito, você não vai encontrar num shopping o amor e a amizade, os prazeres da vida doméstica, a satisfação que vem de cuidar dos entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a auto-estima proveniente do trabalho bem-feito, a satisfação do “instinto de artífice” comum a todos nós, o reconhecimento, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos; você não encontrará lá proteção contra as ameaças de desrespeito, desprezo, afronta e humilhação. Além disso, ganhar bastante dinheiro para adquirir esses bens que só
podem ser obtidos em lojas é um ônus pesado sobre o tempo e a energia disponíveis para obter e usufruir bens não – comerciais e não-negociáveis. Pode facilmente ocorrer, e frequentemente ocorre, de as perdas excederem os ganhos e de a capacidade da renda ampliada para gerar felicidade ser superada pela infelicidade causada pela redução do acesso aos bens que “o dinheiro não pode comprar”.

O consumo toma tempo (ir ás compras também), e os vendedores de bens de consumo são naturalmente interessados em reduzir ao mínimo o tempo dedicado à agradável arte
de consumir. Simultaneamente, eles se interessam em cortar o máximo possível, ou eliminar de uma vez, as atividades que ocupam muito tempo mas geram poucos lucros de mercado. Tendo em vista sua freqüência nos catálogos, as promessas contidas nas descrições dos novos produtos disponíveis – como “não exige nenhum esforço”, “não é necessária nenhuma habilidade”, “você vai curtir [música, paisagens, delícias do paladar, a limpeza renovada de sua blusa etc] em minutos” ou “com apenas um toque” – parecem presumir que haja uma convergência de interesses entre vendedores e compradores.

Mas, quaisquer que sejam os ganhos de uma transação como essa, seu impacto sobre a soma total de felicidade é, no mínimo, bastante ambíguo.

Vivemos numa era em que “esperar” se transformou num palavrão. Gradualmente erradicamos (tanto quanto possível) a necessidade de esperar por qualquer coisa, e
o adjetivo do momento é “instantâneo”. Não podemos mais gastar meros 12 minutos fervendo uma panela de arroz, de modo que foi criada uma versão de dois minutos
para microondas. Não podemos ficar esperando que a pessoa certa chegue, de modo que aceleramos o encontro … Em nossas vidas pressionadas pelo tempo, parece que
o cidadão do século XXI não tem mais tempo para esperar coisa alguma.

Ainda sou do tempo em que a espera era um prazer… Esperar parece ter se tornado um luxo,uma janela em nossas vidas estritamente agendadas. Em nossa cultura do ‘agora’, de Tablets, laptops e smartphones, os ‘esperantes’ veem a sala de espera como um refúgio. Talvez, a sala de espera nos relembre a arte, tão prazerosa mas infelizmente esquecida, de relaxar.

Seria possível, por exemplo, convidar um parceiro para um restaurante, servir
às crianças hambúrgueres do McDonald ou pedir “comida para viagem” em vez de preparar refeições “a partir do zero” na cozinha de casa; ou comprar presentes caros para os entes queridos como compensação pelo pouco tempo que passam juntos ou pela raridade das oportunidades de falarem um com o outro, assim como pela ausência, ou quase ausência, de manifestações convincentes de interesse pessoal, compaixão
e carinho?

Mas mesmo o gosto agradável da comida do restaurante ou os preços altos nas etiquetas e os rótulos prestigiosos fixados aos presentes dificilmente alcançarão o valor, em termos de felicidade agregada, dos bens cuja ausência ou raridade eles devem compensar: bens como reunir – se em torno de uma mesa com comida preparada em conjunto para ser compartilhada, ou ter uma pessoa que nos é importante ouvindo com atenção uma longa exposição de nossos pensamentos, esperanças e apreensões mais íntimos, e provas semelhantes de atenção, compromisso e carinho amorosos. Toda e qualquer oferta exige certo sacrifício da parte do doador, e é precisamente a consciência do auto-sacrifício que
aumenta seu sentimento de felicidade. Presentes que não requerem esforço nem sacrifício, e portanto não exigem a renúncia de outros valores cobiçados, são inúteis nesse quesito.
O grande humanista e psicólogo Abraham Maslow e seu filho pequeno compartilhavam o amor por morangos. A esposa de Maslow lhes oferecia morangos no café-da-manhã:
“Meu filho”, ele me contou, “era, como toda criança, impaciente, impetuoso, incapaz de saborear lentamente suas delícias e prolongar sua alegria por mais tempo; ele esvaziava o prato rapidamente e depois olhava, desejoso, para o meu, quase cheio ainda. Toda vez que isso acontecia, eu lhe dava meus morangos. E, sabe,” Maslow concluiu a história, “eu me lembro daqueles morangos parecendo mais gostosos na boca dele do que na minha…”.

Um dos efeitos mais seminais de se igualar a felicidade à compra de mercadorias que se espera que gerem felicidade é afastar a probabilidade de a busca da felicidade algum dia
chegar ao fim. Essa busca nunca vai terminar – seu fim equivaleria ao fim da felicidade como tal. Não sendo possível atingir um estado seguro de felicidade, só a busca desse alvo teimosamente esquivo é que pode manter felizes (ainda que moderadamente)
os corredores. Na pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada. Os pretensos meios se transformam em fins: o único consolo disponível em relação ao caráter
esquivo do sonhado e ambicionado “estado de felicidade” é permanecer no curso; enquanto se está na corrida, sem cair exausto nem receber um cartão vermelho, a esperança de uma vitória futura se mantém viva.

Felicidade tem mais a ver com “como” do que com “o quê”.