Amantes da fantasia

“A imaginação é o direito constitucional para viver de novo. Não desperdice a vida com uma única vida.”
Fabrício Carpinejar

Quando reflete sobre si, o homem comum se vê como alguém racional, lúcido, com os pés no chão, mas que às vezes é tomado pela fantasia. Os psicanalistas acreditam no contrário: o homem sonha a maior parte do tempo, e em certos momentos, geralmente a contragosto, acorda. Passamos um terço da vida dormindo, portanto sonhando, e quando estamos despertos nossos devaneios ocupam um tempo muito maior do que imaginamos. Mesmo trabalhando estamos fantasiando estar em outro lugar, com outras pessoas, fazendo outras coisas. Passamos um mês de férias, mas os outros onze sonhando com elas, assim como o sábado e o domingo não ocupam somente esses dois dias em nossos pensamentos.

A vida amorosa e sexual é muito maior e mais variada na fantasia do que na realidade. Sem falar nos devaneios de grandeza: imaginamos cenas em que estamos no centro das atenções do mundo, realizamos feitos fantásticos, de um heroísmo desprendido, nos quais somos generosos, conquistando a admiração de todos. Isso no melhor dos casos, pois se estivermos ressentidos, frustrados, derrotados, a fantasia será alimentada por impulsos agressivos e então imaginariamente nos vingaremos dos desafetos em grande estilo, criando roteiros infernais para todos os que nos
atrapalharam. Basta um pouco de sinceridade para verificar que a fantasia ocupa um lugar maior na vida do que admitimos.

Sempre que podemos utilizamos algum escape da nossa realidade. Se nossa cabeça está cansada ela usa fantasias emprestadas: as novelas de TV, os filmes, as séries, os romances, ou mesmo pode utilizar-se de fatos corriqueiros para estruturar sonhos e devaneios. Por exemplo, uma partida de futebol é muito mais do que seus 90 minutos de realidade: no esporte, passado, presente e futuro se misturam; o jogo de agora é uma vingança de uma partida anterior, na qual se está somando pontos hoje para uma conquista épica, que virá daqui a meses, segundo a esperança do fiel torcedor; ou seja, a fantasia desborda a realidade do embate e o inflaciona de sentidos.

O senso comum nos leva a acreditar que somos aquele que está acordado, que o eixo do nosso ser, o nosso verdadeiro eu, encontra-se assentado na realidade, e não está contaminado por esse caldo múltiplo de fantasias que nos atravessam o tempo todo. Mas, gostemos ou não, somos o resultado, o somatório, do desperto com o sonhador, até porque nem sempre é possível delinear uma rígida separação entre os dois, tampouco é possível, nem necessário,
definir qual é o mais importante. Na prática, somos casados com a realidade, mas só pensamos em nossa amante: a fantasia.

Apesar disso, não existe uma correspondência entre a importância de sonhar e fantasiar, esse homo onírico que somos, dado o papel que a fantasia ocupa em nossa vida, com uma reflexão sobre ela. Subestimamos a fantasia, sobretudo porque a julgamos acessória, ela não passaria de um escape, um desvio de rota do prumo da realidade. Quando muito, admitimos que a fantasia serviria de consolo, nos ajudaria a suportar os fatos reais da vida, o que é certo, mas raramente acreditamos que ela nos constitui, nos molda e faz parte da arquitetura da nossa personalidade. Na contracorrente desse entendimento, que acusa a fantasia de escapista, bovarista, de tornar-nos incapazes de avaliar a objetividade dos fatos, pensamos que a experiência de imaginar histórias, ou mesmo embarcar naquelas que outra pessoa criou, nos torna mais sagazes, profundos, capazes de enfrentar reveses e compreender complexidades. “A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade”, escreveu Mario Vargas Llosa. A experiência artística nos coloca em sintonia com a fantasia alheia, ela amplia os horizontes aos quais podemos chegar com o uso da própria imaginação e abre a possibilidade
de questionar a realidade, tanto a pessoal como a coletiva. Compartilhar fantasias é o que fazem os artistas com seu público e os pais com os filhos ao contar-lhes histórias. “Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão generalizada, dos seres ao estabelecido”, acrescenta Llosa. Conscientes desse poder da fantasia, as ditaduras baniram boa parte dos artistas e suas obras, pois um rebanho que não sonha não transcende as cercas que o encarceram.

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